quarta-feira, 11 de abril de 2012

Agência de relacionamentos do sertão


A agência de relacionamento de Cícero Alves, no Ceará.

Em Lagoa dos Paulinos, povoado do município de Salitre-CE, o Facebook de Mark Zuckerberg é praticamente um desconhecido. Depois das festas, as fotos cheias de pose não pipocam pela rede. Nem dá para “cubar” (fuçar e descobrir, na gíria nordestina), de forma anônima a partir de um computador, se a moça bonita é solteira ou comprometida, quantos anos ela tem e o que gosta de fazer nas horas livres. Mas desembolsando apenas R$ 10 é possível não só escarafunchar a vida da pessoa, como conseguir um encontro com ela para uma conversa no maior estilo do extinto “Em Nome do Amor”, de Silvio Santos, ou do “Vai dar Namoro”, de Rodrigo Faro.

No distrito que fica a aproximadamente 140 km de Crato, terra natal do padre mais famoso do Brasil, outro Cícero, o Alves, autoproclamado Digníssimo, criou a Agência de Relacionamento Correio do Amor. Da inauguração, em agosto do ano passado, até o dia denta entrevista, em janeiro, no caderno dos cadastros somente o dele estava estampado, para servir de modelo para os futuros clientes, que haviam de se achegar. “Eu acho que um dia pode dar certo”, diz Cícero Alves, em cuja mesa de trabalho existe um aparelho telefônico fixo sem linha, que um dia, quando passar a funcionar, o ajudará no contato com cliente e seus pretendentes. “(A agência) ainda não tem telefone, mas vai ter”, promete.
                                                                                                                                                          
No perfil de referência, Cícero se apresenta como um homem de 32 anos “totalmente verdadeiro”, que procura mulher rica, carinhosa, bonita, fiel e filha única. Mas que fique claro: são todos quesitos de preferência, não se trata de exigência.

Cícero Alves e seu perfil, na agência.

Fazendo jus ao adjetivo que o define, Cícero diz com naturalidade querer uma companheira que seja ao mesmo tempo sua empresária. “Tenho muitos sonhos, acima até da normalidade, e quero alguém para realizar meus sonhos com o dinheiro dela, em benefício dela também”.

Não é golpe do baú. Apenas uma troca, que não poderia se concretizar escolhendo ele uma mulher de poucos recursos. “Se eu falar que quero uma simplesinha, não é do meu gosto. Até poderia ser, mas não tenho condições de sustentar”.

Sobre a opção por filha única, Cícero argumenta que é para fugir do risco que as cunhadas podem oferecer. “Esbarra na questão da fidelidade. Às vezes acontece de eu me interessar por ela e ela por mim”, explica. É melhor evitar a tentação.

A agência toma conta do tempo de Cícero. Tirando o dia em que ele tem que ir a Salitre para receber o beneficio do INSS – é aposentado por invalidez devido a uma deficiência visual -, em mais nenhum outro a jornada escapa das 12 horas. Almoça rapidinho na casa da mãe, a 200 metros da agência, e, não raro, passa a noite no local de trabalho, pensando e repensando estratégias.

Quando veicula anúncio na rádio, algum ou outro põe as caras na porta e pergunta como funciona o esquema. Mas o convite à inscrição é sempre respondido com um “deixa alguém se inscrever primeiro que então eu venho”.

Cícero diz que o problema dos solteiros da região não é a timidez, mas a ineficácia das cantadas, muito fracas. O “pode ser ou tá difícil”, segundo ele, ainda reina por lá. “Em vez de aproximar, a pessoa só afasta a moça”, diz ele com conhecimento de causa. Há muitos anos é o intermediador dos casais interessados em relacionamento sério, mas sem jeito para iniciar um contato. Comunicador, cantador de bingo, sempre foi procurado para entregar recadinhos apaixonados, a começar por um tio, que gostava de uma morena, mas não sabia como agilizar o processo. Hoje, tio Francisco é casado com a amada e tem uma porção de filhos. “Levou um tempo, mas a intermediação deu certo”, conta.

Assim que a agência engrenar, Cícero pretende colocar em prática outro projeto: construir a Casa Sagrada de Gratificação do Digno, para receber os adeptos (que ainda estão por vir) da religião que ele criou, a Prática do Bem. O dinheiro para as obras virá de atos como o casamento que ele quer oferecer para os casais que se formarem a partir da Correio do Amor.

“Quero unir as pessoas e acredito que tenho essa graça de estar abençoando os casais”, diz. Bênção que estaria também disponível a casais já unidos, especialmente os amancebados, ditos pelo povo “amaldiçoados” e condenados a se transformarem em animais por não viverem uma relação tutelada pelo catolicismo. “Minha bênção é uma proteção. Não quero que mais ninguém vire bicho”.

Um dos nove irmãos de Cícero, na ausência deste, se atreveu classificar o negócio como uma furada. Talvez os moradores de Lagoa dos Paulinos, povoado que possui menos de uma dezena de ruas e umas 50 casas, compartilhem da mesma opinião, já que ninguém, até janeiro, pelo menos, ainda havia se atrevido a investir os R$ 10 pelo serviço do rapaz. E Cícero, mesmo que aparentemente desconfiando do descrédito que lhe é atribuído, só quer é saber de seguir adiante com seu empreendimento, num entusiasmo de fazer inveja a muito empresário de sucesso. 

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